Sempre presente

Eu sempre acho que posso arriscar meu medo. E sempre desconheço os riscos do tempo.

Eu sempre acho que meu sorriso faz rir. E sempre que vejo o seu, sinto vontade de chorar.

Eu sempre contemplo seu rosto. E sempre deixo de piscar os olhos para não violar a imagem no altar.

Eu sempre ando devagar. E sempre você fica a divagar.

Eu sempre viro as noites. E sempre você tenta me acordar de manhã.

Eu sempre tenho a certeza. E sempre você traz as reticências…

Eu sempre Alegre. E sempre você Smiley mostrando a língua

Eu sempre tenho a saudade mais melosa. E é sempre a vontade mais doída.

Eu sempre tenho a melhor música. E sempre você se arrisca na melodia.

Eu sempre sinto falta do seu beijo. E sempre que beijo, eu agradeço por ser apenas o início.

Eu sempre percorro sua nuca. E sempre que deslizo, seus espasmos só incentivam meu caminho.

Eu sempre toco suas coxas. E sempre elas me obrigam a não parar.

Eu sempre me sinto dentro de você. E é aí que sempre dou adeus à minha sanidade.

Eu sempre sonho com romances. E sempre me conformo com minhas solidões.

Eu sempre sonho com um melhor jeito. E sempre me consolo em saber que só tem esse jeito.

Eu sempre tenho uma utopia. E sempre é você quem alerta sobre o possível.

Eu sempre puxo o Sol. E sempre no tarô você é a minha Imperatriz.

Eu sempre acredito que o futuro é otimista. E sempre você prova que bom mesmo é o presente.

Presente eu. Eu presente.

Eu… presente?

Eu, o presente.

Meu presente.

Tupi x Globo: a ousada e a melindrosa

Apesar de trabalhar em televisão há algum tempo, sou um entusiasta do rádio. Mais que isso, um radioapaixonado. E uma das brigas mais gostosas de assistir é o duelo Globo x Tupi pela liderança da audiência.

Ficar de ouvido ligado nas duas das maiores emissoras do País é bem mais prazeiroso que sintonizar outras rádios que só tocam música (meu mp4 faz o mesmo); limitam-se a falar besteiras (meus amigos fazem o mesmo); repetem notícia e tocam (muita) vinheta ou contam com âncoras que se acham os arautos da moralidade, mas que apenas fazem discursos em palanques de caixote.

Testemunhar uma briga Globo x Tupi é acompanhar de perto (e o rádio é meio mais cúmplice do seu alvo – o ouvinte) o que cada uma é capaz (ou não) de fazer para conquistar os saborosos pontos no Ibope. Ouvir Globo ou ouvir Tupi é como torcer pra um time de futebol ou escolher entre Emilinha e Marlene qual delas é a Rainha do Rádio.

Há algum tempo, a Tupi tem se saído bem no Ibope e desbancando pra valer a Globo. Qual o segredo de uma emissora com infraestrutura menor (vamos lembrar que a Rádio é Globo, ou seja, das Organizações de mesmo nome) estar quase as 23 horas (descontemos a Voz do Brasil) na frente?

A Tupi arrisca em ser popular, mesmo cometendo seus exageros (alguns programas forçam a barra no policialesco e margeiam o homofóbico, por exemplo). Apesar disso, a Tupi encontrou o jeito de ser e falar do carioca ao migrar para o FM, se tornou uma excelente prestadora de serviços (veja o efeito que o Clóvis Monteiro causou no Antonio Carlos ao transformar o ouvinte em protagonista. Clóvis tem sido avassalador com o “ouvinte-reporter”. Depois de anos, a Globo tem perdido pra Tupi entre 6h e 7h da manhã).

A Tupi é plasticamente perfeita (vinhetas e efeitos sempre no “time” certo). Esses dias ouvi o Roberto Canázio, da Globo, reclamar no ar que um spot estava velho. Precisava disso?

No esporte, Tupi e Globo ainda estão numa disputa cabeça a cabeça. Tem ótimos profissionais dos dois lados. A Globo talvez se saia melhor no quesito renovação de quadros.

A Tupi tem sido mais animada, fazendo do rádio uma festa 24 horas por dia. Acertando ou errando, a emissora de Apolinho, Pedro Augusto e cia. tem mandado bem na latinha.

E a Globo?

A Globo peca por não fazer. Ou por ter receio. Engessada por ser uma emissora de rede, a rádio perde sua identidade (fator primordial no veículo). Entenda, o ouvinte de rádio popular é (muito) bairrista. Ele sabe que televisão e jornais são os holofotes da mídia, vão clarear os fatos que ocorrem no mundo. Mas quem faz o papel de ‘lanterna’, que ilumina aquele ponto que o holofote não chega? É o buraco na rua, o poste que cai, a falta de água na comunidade. Esse é papel do rádio popular. E esse papel a Globo tem perdido, mesmo com uma excelente equipe de jornalismo (vinda da escola CBN).

A Globo tem medo de ousar por sua audiência católica e conservadora. Pelo excesso de espaço dado aos comunicadores (nossa, como o Antonio Carlos e o Canázio falam e como os ouvintes falam pouco nos programas dele). É como se cada comunicador fosse dono de um feudo. Ninguém mexe nele, ninguém tasca. Nem o ouvinte. Salvo exceções como figuras novas – e ótimas – que despontam na Globo (Tino Jr, por exemplo), o resto faz a mesma coisa todos os dias. 

A Globo tem pecado por apostar numa mídia que ainda não se disseminou tanto na classe D (internet). As redes sociais ainda são ‘sabonete de luxo’ para o brasileiro médio.

E mais: não adianta a Globo gastar e gastar em jornalismo ‘a lá CBN’. Isso é papel da all-news. A emissora tem que investir em utilidade pública, serviços (muitos), ações comunitárias e contar histórias que valorizem o lado bom – e ruim – do ser humano. Pegar carona na infraestrutura da TV Globo (atores, cantores, apresentadores também participando da rádio). E o principal: tornar o ouvinte o ator principal do processo. Não um mero espectador. 

Do contrário, a Tupi continuará sendo a ousada. E a Globo seguirá como a melindrosa.

Mulher versão 3.0

Quase todas vivem a sensação (e a ansiedade) quando chegam à casa dos 30. Mas é nos detalhes do dia a dia que bate um estalo nela e… Putz! “sou uma balzaquiana”. Aliás, Balzac já dizia há 150 anos das virtudes da de 30, um ser com atrativos irresistíveis.

“Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza”.

E como é a mulher de 30?

Ela é uma guerreira. Ah, se é. É aquela que pega os filhos na escola, se vira pra pagar as contas, não perde jamais a vaidade e é deslumbrante ao beber um chope sozinha. A mulher de 30 é essencialmente morena, e que não me venha tingir o cabelo de amarelo ovo que aí ela salta para os 40.

É a mulher que está para se separar ou já se separou. E antes dos 40, em vários casos, elas arrumam o segundo – e definitivo companheiro.

A maioria das mulheres de 30 tem um filho. Se dão bem com ex-marido, tão bem que ele passa a ser um assexuado. “Ele errou tanto comigo que não consigo sentir mais nada. Nada mesmo”, pensa uma que passou dos 35. Antes disso, muitas ainda sofrem com os carcarás sanguinolentos (jeito que minha mãe, aos 30, chamava o ex dela. Por sinal, meu pai).

As mulheres 3.0 são as mais bonitas delas. Aliás, por que os concursos para misses não ampliam a faixa etária para os 30 anos? Seus sorrisos e olhos são cristalinos. E quando jogam seus cabelos pra trás? Nossa, ninguém resiste.

Outro item que faz uma mulher de 30 ser enlouquecedora é sua independência. Elas moram sozinhas, pagam suas contas. Juntam o vigor das de 20 com a matirudade das de 40. Adoram flores, chocolates (diet) e sabem de detalhes deliciosos, como escolher motéis e vinhos. Amam quem querem, quando querem e onde querem. E do jeito que elas querem.

Plástica numa mulher de 30? Nada! Ela está com tudo em cima. Seu sexo é sempre como se fosse a última vez. A de 30 grita, morde, arranha, sua como ninguém. Ela arrasa e apaixona.

As mulheres de 30 são morenas. Ok, podem ser loiras, negras. Mas são essencialmente morenas. Se o cabelo é de outra cor, suas almas e espírito de vida são de uma morena.

As mulheres de 30 são lindas em seus detalhes. O decote que finalmente encontra sua posição certa, não sendo uma espécie de aerofólio frontal como na adolescência (uma menininha com um peitão) ou algo recatado demais como nas de 40. E os pelinhos nas costas… lá embaixo. Sem comentários.

Um viva às mulheres de 30 porque sua pressa não existe. Elas sempre sabem onde querem chegar.

E elas sempre chegam.

Bota aqui o seu pezinho

pés

A mulher pode não ser bonita em muitas coisas, mas em um ponto é fundamental que haja beleza, harmonia:

Os pés.

Não, eu não consigo me apaixonar por alguém com os pés feios.

Pense: vivemos numa sociedade onde a evasão de privacidade é fato consumado, onde a Mulher Melancia posa nua pela quinta vez (já não sei o que há mais para mostrar). Logo, creio que a última fronteira daquilo que realmente não vemos em nosso cotidiano (sobretudo o frio) são os pés. É o que se esconde dentro de tênis e botas (agora no inverno) que, uma vez mostrada, não é mais esquecida. Diga-me com que pés andas e te direi que és…

Antes de mais nada, esclareço que não sou podólatra. Mas passei a repará-los pelo excesso na exibição de outros atributos femininos. E não posso nem falar dos meus pés que, certamente, pediram para ser feios no Vale do Eco. Como sou portador de uma neuropatia (assunto chato e que fica para outro dia), eles são tortinhos. Meu dedão eu o apelidei de Pato Purific. Uma forma de rir da própria desgraça…

Claro que há mulheres maravilhosas que devem ter lá seus calos e joanetes hediondos, que certamente o Super Homem tinha chulé por calçar uma bota sobre um colant. Mas os pés são um resumo da pessoa, o twitter do corpo. Tá tudo ali nele. Sucinto.

O pé é o grand finale de uma obra divina. Na rua, você avista aquela ninfa perfeita. Cabelos, olhar, boca, ombros, decote, seios, cintura, coxas, joelhos… Mas se as sandálias revelam dedos feios, excessivamente gordinhos, angulosos, cheio de pequenos nós… nossa. É como se o sorvete estivesse sem cereja. E o detalhe vira defeito.

E não venha me dizer que existem pés bonitos ou feios de acordo com o gosto do freguês. Nada disso. Pé ou É bonito ou É feio. Flores são subjetivas. Um pode achar a rosa mais bonita que a camélia – e vice-versa. Mas existe um pé ideal, sim.

O pé lindo é discreto. Pés com dedos proporcionais, que diminuem gradativamente a partir do dedo ao lado do dedão. Aliás, por falar em dedão… quando algumas mulheres vão aprender que é feio pintar uma unha tão grande e torná-la um outdoor de curvas e linhas tribais, com pontinhos brilhantes. Poxa, quer aparecer até no pé? E aquelas que resolvem fazer uma ‘francezona’? Nada disso. Pés precisam ser delicados. Unhas têm que pequenas, parecidas. Quanto mais simples, melhor.

Isso tudo sem falar no dedinho que não tem unha, só aquele fiozinho mixuruca, mas parecendo um caçula que não pode brincar com os irmãos mais velhos.

Então, que não venha nenhuma Associação dos Defensores dos Pés me crucificar ou me acusar de bullying podal. As invejosas da Cinderela que me perdoem.

Pés lindos são fundamentais…

Osama, Obama e a lei de talião

 

A queda do papa dos fundamentalistas islâmicos, do Che Guevara para os talibãs, do símbolo do jihad ferve no mundo ocidental. É certo que o mentor dos ataques do 11 de setembro já não exercia nenhuma função executiva ou operacional na chamada franquia do terror. Mas Osama Bin Laden era um símbolo popular, um retrato do medo, um arquinimigo global. Uma figura que, morta, provoca ônus e bônus para os Estados Unidos.

Vamos recapitular?

George W. Bush, republicano, teve quase oito anos para trazer a cabeça de Osama. Entrou em guerra com o Afeganistão, invadiu o Iraque (sob o pretexto nunca confirmado de que haveria armas de destruição em massa, lembra?), torrou bilhões de dólares e culminou com o triste saldo de centenas de militares americanos mortos e milhares de feridos. Não emplacou seu sucessor e entrou para a história como um dos presidentes mais criticados e desprestigados.

Obama chega ao poder, mas enfrenta forte resistência no Congresso, sofrendo uma derrota maiúscula nas eleições legislativas. No entanto, a notícia da morte de Bin Laden é a melhor de seu governo. Concede ao presidente americano um ativo eleitoral perfeito para sua reeleiçao. E até 2012, Obama pode se consagrar como o líder que pôs fim a Osama e que espantou Kadafi e suas décadas de ditadura na Líbia. Ou alguém acha que o prazo de validade do líder líbio não expirou?

osama

Fato é que a morte de Bin Laden acende pontos pró e contra os EUA. A guerra contra o terror não cessará. Pelo contrário. Sabemos que a indústria bélica se alimenta da cultura do terror. E que, certamente, os talibãs vão reagir à queda de seu ícone. Já antevendo essa possível escalada da violência, os americanos serão ainda mais intransigentes e desconfiados. Se você se sentia um bandido – ou um terrorista – de tanto que te revistaram nos aeroportos americanos, prepare-se para dias piores.

E o que mais me choca: saber que ainda vivemos no esquema olho por olho, dente por dente. Não enxergo justiça na morte de Bin Laden. Sinto que o mundo lá fora está tenso, muito perigoso.

A ressurreição de Fumaça

Carioca malemolente, daqueles em que a faculdade da vida dispensou qualquer outra academia. Este é Gilson da Silva, 33 anos, o Fumaça, morador do Santa Marta. “Este é o Pão de Açúcar, aquela é a Ponte Rio-Niterói. Lá embaixo é Icaraí, a Copacabana de Niterói. E aquelas outras prainhas da Região Oceânica eu me confundo. Mas são todas legais”, improvisa o negro de bigode ralo, cordão de prata grosso pendurado no pescoço e sorriso fácil. Um jeito que encanta as cinco mineiras que o acompanham. “Ele é ótimo”, derrete-se a mineira galeguinha, que poderia ser facilmente confundida com uma polonesa, por exemplo. Fumaça é solteiro. Quer seguir assim. E não é à toa.

O jeito alegre de Fumaça simboliza um final feliz de uma história que envolve perigo, ação e reconquista. Antes do Santa Marta ser pacificado, este pai de três meninas estava no submundo do crime. Algo que ele não se orgulha, mas também não omite. “Eles tinham as melhores mulheres, a moral no morro. Dinheiro fácil. Eram meu exemplo”, lembra-se. Até o dia em que conheceu a mão forte da polícia. Num assalto a mão armada, acabou rendido e preso. Foi condenado. Dois anos de regime fechado.

Testemunhou uma rebelião no presídio, que segundo ele, não adiantava chamar pai, mãe que não ia adiantar. “Era eu e Deus num caldeirão de pólvora, numa jaula cercada de leões por todos os lados”. Sobreviveu. E a ficha do destino que sua vida estava levando caiu quando, durante a visita de sua família, abraçou a filhinha de seis meses que ele não viu nascer. “Eu não poderia ver minha pequena crescer longe de mim. Mesmo assim a Thayná riu pra mim, como se tivesse me reconhecido. Chorei muito naquele dia. Chorei por cada dia que não passei com ela; Daquela data em diante, tava firmado que sairia da vida do crime”, sentenciou. E conseguiu.

Passados os tempos difíceis, Fumaça fez de tudo na vida: vendeu bebida, auxiliou em biblioteca, foi ascensorista. Agora é monitor turístico do Santa Marta. E diz amar o que faz. “Dá pra tirar de R$ 15 a R$ 30 com cada turista nacional. Mas quando é gringo, não perdoo. É um ‘galo’ (R$ 50) no mínimo”, avisa.

O papo com ele é fácil, cercado de gírias e agradecimentos a Deus, a São Jorge, já que hoje é dia de Ogum. O mais recente feito de Fumaça foi ter participado de um reality show com a Samambaia e a Piu-piu, ambas da Record. “Cara, vi as duas de toalha. Levei à praia, baile funk, são muito gente boa”, excita-se, lembrando das coxas grossas e convidativas da mulher planta.

Sobre a UPP instalada no Santa Marta, Fumaça não gosta de falar. Tem medo. A gente respeita, mas procura saber o porquê. É verdade, segundo ele, que antes os turistas perguntavam com medo se iam ser roubados, se era perigoso. Hoje, a comuidade está tranquila. Mas segundo ele, só pra quem olha de fora pra dentro. As respostas de Fumaça seguem evasivas. “Eu fui pacificado antes da UPP”, garante.

Digo mais, Fumaça. Antes ou depois de UPP, você não foi apenas pacificado. Pra um cara que passou pela vida louca do movimento, teve a morte beirando teu corpo e hoje consegue dar risada de tudo, você ressuscitou.

Uma boa Páscoa pra todos.

Marilene e seu sonho de cruzar as pernas

Ela fica sentada. Ocupa dois do velho e surrado sofá de três lugares. Suas roupas lembram a de uma evangélica neo-petencostal, daquelas típicas do interior. Na verdade, sua religião não me importa. O que me espanta – e não teria como ser diferente – é seu tamanho. É enorme. São 190 quilos distribuídos de forma irregular numa mulher que luta para ser feliz.

Suas pernas são grossas como um tronco de árvore, escuras como a casca de um aipim. “Tive erisipela”, justifica. A saia é longa, mas não cobre as feridas na canela, provocadas por não aguentar o próprio peso. A blusa – vermelha – ainda a deixa mais gorda. O cabelo, preso cuidadosamente, parece oleoso. O rabo de cavalo deixa seu rosto mais cheio – e sua aparência ainda mais, mais gorda. Quase não há maquiagem para enfeitar seu rosto simples, mas cheio de curvas. A papada é imensa e cobre o pescoço. As únicas coisas que ela tem de pequenas, contrastando com suas formas abusurdamente alongadas, são as orelhas.

Chego para a entrevista depois do horário marcado. Ela permanece intacta, tal como a estátua de um Buda. O olhar triste. O ambiente é abafado. A Penha é sempre abafada. Tanto calor que faz o suor escorrer de sua testa e perocorrer sua longa bochecha. Um paninho? Ela tem. Junto com o diazepan, o remédio para diabetes, o inibidor de apetite e outras pílulas. “Algumas são de graça, graças a Deus”, suspira. Em todas, todas as suas frases, Deus está no meio. Ou no fim.

Marilene tem quatro filhos. O caçula, de quatro anos, quase lhe tirou a vida no parto. Foi uma operação de altíssimo risco. Duas bolsas de sangue foram necessárias para repor o que tinha perdido. 17 profissionais de saúde foram destacados para a chegada de uma vida. E a luta para evitar a partida de outra. Detalhe: nao tinha ambulância, nem leito para atendê-la. Nem imagino como ela conseguiu dar a luz e sobreviver…

Marilene é mãe solteira. O pai, quando soube que estava grávida, fez como todo homem covarde e a largou. Por causa da obesidade mórbida, ela ficou oito meses sem menstruar e só percebeu a gravidez no quinto mês de gestação. Os filhos são saudáveis. Ela não. As manchas escuras na pele, como o Tim Maia, mostram uma pessoa viciada em comida. “A comida é a maconha do gordo”, sentencia. “Como e muito quando estou triste”. Talvez, exagerado, me perguntei quando Marilene esteve alegre…

Marilene espera por uma cirurgia de redução de estômago há 12 anos. Credita nela sendo a salvação de sua vida. Está na fila junto com outras 5 mil pessoas obesas só no estado do Rio.

Admite que tem medo de morrer.

Mas ela não desiste. Com sua fé irretocável, tão grande quanto seu corpo, ela segue seu caminho cercado de preconceitos, falta de estrutura dos hospitais públicos e tolida como cidadã. Não há espaço para os muito gordos na sociedade. Quando o tema é inclusão social, eles estão um patamar abaixo dos portadores de deficiência, por exemplo. Pensam que ser gordo, como ela, é sinônimo de relaxamento, preguiça. Marilene hoje vive da aposentadoria como invalidez.

Apesar de todos os problemas, ela esboça um sorriso quando pergunto qual o sonho dela depois que tiver feito a cirurgia

“Poder cruzar as pernas. Não consigo fazer isso. Só quero isso pra mim e já está bom”.

Marilene solicitou a cirurgia num hospital da rede federal em 1999.

O local faz apenas 40 cirurgias de redução de estômago por ano.

Ela quer cruzar as pernas.

Para mim, resta cruzar os dedos…

Basta ser você…

Tem dias que eu não quero você mude só para tentar me agradar.

Pra quê isso, se você nunca me decepcionou?

Se eu gosto, é porque é desse jeito que és, com cada milímetro de defeito e cada porção de qualidade.

Sim, porque a parte ruim a gente mede direitinho, mas o lado bom é sempre sem dimensão.

Gostar de você é não te abandonar nos tempos mais difíceis. É justamente nessa hora que poderemos ir longe…

Não, não mude seu cabelo, seu estilo, suas unhas, sua celulite. Não mude nada! Sabes que terá sempre minha paixão declarada, ainda que discreta ou quase sempre velada.

E mesmo às vezes, quando parecer que não estou me importando, é porque apenas não quero papos cabeça ou um esforço extra para minha mente.

Só quero conversar… divagar. E devagar.

Só preciso saber que você seja sempre, sempre a mesma pessoa que um dia conheci

Se eu disse que te amo, esse amor é pra sempre.

Só não posso te amar mais porque amo desse jeito.

Sim, ele é sincero. Mas não é pelo meu jeito.

É pelo seu jeito.

Dever cumprido num dia sofrido

Chego ao novo trabalho 20 minutos antes do horário. Depois de dois anos, voltara a respirar os ares de uma redação. Aquele ambiente em que você acorda junto com as notícias, pensa, planeja e sai em busca delas.

Minha primeira pauta na nova casa era sobre uma tragédia. O deslizamento de terra – e lixo – no Morro do Bumba, em Niterói, completava um ano. O gancho da matéria era ver a quantas andavam os protagonistas de um episódio que chocou o País, com 47 mortos, e um atestado de incompetência e irresponsabilidade do Poder Público.

Chego ao local da minha primeira entrevista dentro do horário. No caminho até São Gonçalo, bato um papo sadio com minha nova equipe. Sei que, daquele dia em diante, eles terão que lutar por mim, e eu por eles, para que consiga cumprir o que disse no primeiro parágrafo do texto – alcançar as notícias.

Só que não desço do carro. Uma nova tragédia se desenhava. A redação grita para que eu corra até Realengo. “Um homem entrou numa escola e matou crianças”, berravam do outro lado do ‘radinho’. O quê? Uma nova Columbine? E aqui? Não conseguia acreditar.

Ligo o rádio. O FM. A apresentadora, de maneira improvisada, tenta encontrar justificativas para o inexplicável. Tentam achar informações que são completamente desencontradas. Penso na minha filha. Um homem drogado? Um louco? Crime passional? Sabia que aquele não era um caso de segurança pública, mas um episódio de uma sociedade cada vez mais brutalizada, vizinha da barbárie.

Chego ao hospital. Crianças chegam feridas ogo depois. Uma delas eu tinha a triste certeza que não sobreviveria. Não acredito nos milagres, mas tenho uma fé quase cega na força da solidariedade humana. E que comovente foi ver tantos médicos empenhados, bombeiros, policiais, enfermeiros, assistentes, psicólogos, todos prestando mais que socorro. Todos tentando doar um pouco de suas vidas. Uma médica muito querida veio me dar os parabéns pelo Dia do Jornalista. Respondi que retribuirei a homenagem em 18 de outubro, Dia do Médico. Esse, sim, trabalha sem o glamour fútil ou o imediatismo tolo que parte da nossa imprensa insiste em cultivar. Notícia como espetáculo, como filme de ação… até quando?

Welington, o assassino, estava morto. Qual o resumo de sua vida? Que sentimentos a mãe dele terá (ou teria) ao ver o filho ceifando a vida de outros filhos? E de que adianta tentar uma explicação sobre quem (ou o quê, para os mais radicais) foi Welington? Não me importa. O que temo em assistir nos próximos dias é o nascimento de alguma campanha que demonize a escola pública. Que ela fique cheia de grades, cercas e militarismo. Nada disso. Escola sempre será um campo libertário, solidário e construidor.

Quanto às crianças… qualquer palavra minha sera inútil, limitada. Prefiro colocar o que li há pouco de uma amiga que trocara sua foto no FB por uma lágrima.

“Deus nosso Pai que sois todo poder e bondade dai a força aqueles que passam pela provação, dai a luz aqueles que procuram a verdade, ponde no coração do homem a compaixão e a caridade (…) dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia ao órfão o pai (…)que a vossa bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda a parte a paz a esperança e a fé.” (trecho da Prece de Cáritas)

Foi meu primeiro dia na nova casa. Foi um dia muito triste. O dever? Cumprido. Mas que dia… que dia…